
Como todos nós sabemos, os fundamentos do "Não", são concordantes com a doutrina da Direita que, por sua vez, é essencialmente barroca. Não vou perder tempo a explicar o que isto significa, somente que, ao ser barroca tem, forçosamente, de seguir um padrão ritualístico. A Igreja assegura, por conseguinte esta avidez semiótica e ritual, já que todas as outras fontes se foram esgotando ao longo do tempo. Ou seja, já não são capazes de impôr o respeito e, acima de tudo, reverência, só porque existem e mostram que existem.
Assim, fica explicado o forte pendor religioso do "Não" que, mais concretamente e de forma desdobrada, significa: "Não posso morder a mão que me alimenta!".
Posto isto, resta explicar o porquê desta intransigência relativamente à I.V.G. que, como veremos, tem várias motivações:
1-
Bíblica: "Multiplicai-vos uns aos outros"; "Não matarás";
2 -
Sexual: Impôr uma moral sexual repressiva;
3 -
Social: Impedir a disposição do próprio corpo; Gerar miséria para oferecer caridade; Elevar a ignorância para reinar sobre todos.
Relativamente ao primeiro ponto, todos sabemos que a Bíblia é um livro escrito ao longo de séculos, por várias pessoas. Por este motivo, é contingente, não pode ter uma interpretação além da pessoal e, onde se lê: "Não matarás", um pouco mais à frente, pode ler-se: "Ordeno-te que pegues no teu exército e mates homens, mulheres, crianças e animais, para que não reste vivalma nessa cidade".
A religião, sobretudo a católica, sempre procurou impôr uma moral sexual à sua imagem e semelhança, ou seja, castrada. Tentam obrigar os outros a passar pelas suas frustações sexuais decorrentes do celibato, sabe Deus mantidas a que preço. Ainda propósito da moral sexual é importante reflectir sobre o conceito "inocente" aplicado às crianças.
Mas afinal são inocentes do quê!? São inocentes do pecado dos pais ao gerá-las, o pecado original. Uma criança não é inocente nem culpada, é somente uma criança.
Convém ainda não esquecer que boa parte dos abortos se fazem com base neste argumento. O sexo é pecaminoso e moralmente reprovável antes do casamento pelo que, dificilmente, as famílias aceitam o fruto destas relações. Nunca irei esquecer aquela colega da Serra da Estrela que foi espancada pelo pai quando lhe comunicou que estava grávida. Os mesmos beatos que dizem que o aborto é um atentado contra a vida, espancam as filhas porque estão grávidas!
Por fim, a motivação mais importante, a social. Por mais voltas que demos, a maioria dos seres humanos só possui mesmo o corpo, do qual deveria poder dispôr livremente. Ora, havendo pelo menos uma coisa sobre a qual não têm controle, rapidamente arranjaram forma de lhe pôr a mãos, quer seja com a dita moral sexual reperessiva, quer com a determinação do número de filhos que daí pode advir. Ou seja, a lógica perversa de cercear as relações sexuais com o número de filhos: os filhos são o "contraceptivo" do sexo.
Por outro lado, com o tipo de sociedade desigualitária (que a Direita apoia tácita ou declaradamente) que temos, é impossível haver recursos suficientes para todos. Ora, com um aumento demográfico, haverá sectores sociais a ser lançados na miséria de modo a entrar aqui, sorrateiramente, a entidade
caridade.
A caridade não tem como finalidade retirar ninguém dessa miséria, apenas serve para que nos mantenhamos vivos e eternamente agradecidos. Então, se somos agradecidos, faremos o possível para que nos estendam a mão novamente, até se tornar num ciclo vicioso.
Nunca ninguém viu a Igreja ou a Direita exigir trabalho justo e bem remunerado para todos, pois não!? Claro que não, porque isso implicaria mexer nos seus próprios bolsos usurpadores.
No dia em que, a troco de uma verdadeira penalização do aborto, obrigassem os patrões a sustentar e a educar condignamente os filhos dos trabalhadores, certamente que os mesmos que hoje defendem o "Não" viriam para a rua defender o aborto obrigatório entre a prole dos seus assalariados.
Além do mais, não tenhamos ilusões, eles apesar de não o admitir, não apoiam qualquer tipo de aborto, inclusivé por malformação do feto ou violação. Nunca nos podemos esquecer de outro conceito aberrante que se chama "vontade divina". Têm é a consciência de que se o fizessem, rapidamente dariam a vitória ao "Sim".
Por fim, não será necessário referir que a miséria é a mãe da ignorância e esta ignorância é o verdadeiro "ópio do povo".
Resumindo, a tão defendida
"Vida" jamais se irá confundir com
"condições de vida" e, acaba forçosamente quando nascem as criancianhas, que se quer ranhosas, famintas e pobrezinhas para que alegremente recebam migalhas.